Acordo ou "aniquilação"? Diplomacias de Irão e Estados Unidos em diálogo na sede da ONU

Acordo ou "aniquilação"? Diplomacias de Irão e Estados Unidos em diálogo na sede da ONU

O presidente do Irão dirige-se nas próximas horas à Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque. Masoud Pezeshkian comprometeu-se já a “defender com firmeza” a posição da República Islâmica diante da ofensiva de israelitas e norte-americanos.

Carlos Santos Neves - RTP / Adicionar como fonte informativa
"Será feito um acordo com o Irão que lhes permita reconstruir e criar um país muito maior do que jamais foi? Ou aniquilo a República Islâmica?" | Mike Segar - Reuters

A sede das Nações Unidas em Nova Iorque foi o cenário, na terça-feira, de conversações entre altos responsáveis diplomáticos de Estados Unidos e Irão. Sem notícia de progressos significativos. As discussões, mediadas pelo Catar, ocorreram no mesmo dia em que o presidente norte-americano, Donald Trump, subiu ao púlpito da Assembleia Geral da ONU para promover a ideia da “paz pela força” e ameaçar Teerão com a aniquilação - à falta de acordo sobre o seu programa nuclear.

O encontro foi protagonizado pelo ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, e por Steve Witkoff, emissário do presidente dos Estados Unidos. Foi a primeira reunião a este nível desde o fracasso do cessar-fogo gizado em junho.

Depois das conversações, Witkoff limitou-se a manifestar a expectativa de que esta ronda de negociações resulte “construtiva e promissora”. “Os mediadores continuarão o seu trabalho”, completou.


Na rede social X, o emissário da Casa Branca escreveu ainda que o diálogo decorreu “por meio dos mediadores, que se desdobravam entre os dois lados ao longo do dia”.

Do flanco do Ministério iraniano dos Negócios Estrangeiros saiu nova exigência de um ponto final aos “atos de agressão”.De acordo com os media estatais do Irão, as condições enunciadas pelos interlocutores iranianos para a reabertura do Estreito de Ormuz incluíram o levantamento imediato do bloqueio naval imposto pela Marinha dos Estados Unidos, a libertação de bens iranianos congelados e o fim da guerra em todas as frentes.


Ao discursar perante a Assembleia Geral das Nações Unidas, na terça-feira, Donald Trump começou por chamar a si o que descreveu como conquistas nos domínios da economia, da imigração, do controlo de fronteiras e do combate à criminalidade violenta. Tom análogo àquele que frequentemente emprega em comícios e que não é alheio à aproximação das eleições intercalares no seu país.

Boa parte do discurso seria, contudo, dedicada à guerra que desencadeou contra o Irão. Entre outros argumentos repetidos no passado recente, o presidente norte-americano quis sustentar que os bombardeamentos impediram o regime iraniano de obter armamento nuclear.

Trump repartiu, então, a alocução pela oportunidade e pela ameaça, multiplicando os pontos de interrogação: “Será feito um acordo com o Irão que lhes permita reconstruir e criar um país muito maior do que jamais foi? Ou aniquilo a República Islâmica e faço-o rapidamente, sem jamais dar a oportunidade de matar e destruir novamente pessoas e países? Mando-os para o inferno?”.As máquinas de guerra norte-americana e israelita desencadearam a campanha de bombardeamentos aéreos contra o Irão a 28 de fevereiro. O que levou Teerão a retaliar com ataques sobre solo israelita, a bases dos Estados Unidos e a aliados destes no Golfo. Isto a par do fecho do Estreito de Ormuz, por onde passavam, antes da guerra, 20 por cento do petróleo e do gás natural liquefeito do mundo.


O próprio Donald Trump revelaria a jornalistas que a delegação dos Estados Unidos mantivera uma reunião “muito produtiva”, de três horas, com a congénere iraniana, à margem da Assembleia Geral da ONU.O presidente norte-americano remeteu para depois das eleições intercalares de novembro um potencial acordo com a República Islâmica.


Esta quarta-feira é o dia do discurso do presidente iraniano ao fórum internacional de Nova Iorque. Sabe-se já – pelo próprio – que Masoud Pezeshkian quer aproveitar o momento para “defender com firmeza” as reivindicações do regime dos ayatollahs.

As ameaças de Donald Trump coincidem com o contexto de agravamento da crise energética à escala global, alimentada pela escalada do preço dos combustíveis. Além do encerramento iraniano de Ormuz, os Houthis do Iémen, associados ao regime xiita, consolidaram o controlo sobre o Estreito de Bab el-Mandeb, também com importante peso estratégico para os fluxos de combustíveis.

c/ agências
PUB